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Resultados

A recursividade das disputas sígnicas promoveu a gamificação da semiose do impeachment, experimentada em multiplataformas. A narrativa determinante ganhou novos significados pela multiplicidade de caminhos apontados pelo engajamento social, indicando as controvérsias envolvidas. No caso de #NaoVaiTerGolpe, em alguns momentos da narrativa, a hashtag apareceu em associação sígnica com #ForaDilma, #VaiTerImpeachment e #TchauQuerida. Essa tática subverteu os processos de significação em torno da hipótese do golpe, promovendo uma mudança na regularidade de hábitos de ação, pois #NaoVaiTerGolpe representava a constituição da crença contra o processo de impeachment. 

Relações estabelecidas pela hashtag #NaoVaiTerGolpe em 17/04/2016.
Fonte: captura de tela da ferramenta RiteTag .
#NaoVaiTerGolpe em associação sígnica com #VaiTerImpeachment. 
Fonte: página do Movimento Endireita Brasil no Facebook.

Já em relação à hashtag #ForaDilma, a tática foi diferente pois ela apontava diretamente para a imagem da ex-presidente. No entanto, mesmo com a particularidade explicitada na inscrição de #ForaDilma, por meio da experiência colateral, ela também foi encadeada com outras hashtag contraditórias, revelando um processo de argumentação. É o caso da presença de #FicaDilma, que representou um posicionamento contrário, dando continuidade à retórica da hipótese do golpe. Quando as duas hashtags controversas foram colocadas em proximidade, elas evidenciaram as disputas sígnicas entre crenças concorrentes, questionando o valor categórico da polarização a fim de alcançar as proposições de verdadeiro e falso. Entendemos, então, que um dos resultados possíveis das disputas sígnicas, entre #ForaDilma e #NaoVaiTerGolpe, foi a relativização dos sistemas de crença, na iminência de se desdobrarem em um novo contexto comunicacional.

Disputa entre #FicaQuerida e #TchauQuerida.
Fonte: página do Catraca Livre no Facebook.

A semiose do impeachment foi também constituída pela frequente utilização da imagem de celebridades. Em domínio de primeiridade, sua dimensão icônica contribuiu para a inferência do interpretante emocional, pois são personalidades públicas que figuram no imaginário social por meio de imagens sedutoras. Seu efeito na fixação da crença foi sentido na legitimação da defesa do impeachment e da hipótese do golpe. Essa articulação, muitas vezes, foi realizada pela associação de novas hashtags, que gerou uma multiplicidade de desdobramentos por tópicos relacionados. Esse foi um dos pontos que instigou a expansão da narrativa no fortalecimento de #ForaDilma e #NaoVaiTerGolpe. As duas hashtags simbolizaram os posicionamentos a favor e contra a destituição da ex-presidente durante todo o percurso, representando uma norma. Interessante notar que elas nunca chegaram aos trends das plataformas digitais no período das votações, mas devido aos processos de associação sígnica, elas foram acionadas como argumentos, ao longo do tempo, com intensa capacidade de gerar signos-interpretantes.

Artistas com camisetas do #morobloco no protesto de 13/03/2016.
Fonte: grupo Avança Brasil no Twitter(@AvancaBrasil_).
Vídeo com a participação de artistas.
Fonte: página do Facebook da TV Poeira.

Acreditamos que as redes sociais online, como TwitterInstagram YouTube, sejam ambientes típicos para o domínio de secundidade fenomenológica, abarcando estratégias e táticas para a propagação indicial de hashtags pelo esforço energético das mentes humanas e algorítmicas. Isso foi visível nas instruções de compartilhamento de hashtags, elaboradas pelos grupos ativistas na intenção de manipular a ação dos algoritmos. A repetição energética extrapolou a produção de sentido, desdobrando-se transmidiaticamente em outros contextos comunicacionais. Assim, em conexão com as plataformas online, as hashtags se tornaram palavras de ordem no Facebook e nas ruas, indicando o aprofundamento da narrativa. A representação de posicionamentos comuns, nesses espaços, foi predominantemente simbólica. Esse encadeamento sígnico permitiu a ampliação da esfera pública, justapondo os lugares ocupados e os debates em redes sociais online. 

Cartazes com a utilização de hashtags no protesto de 13/03/2016.
Fonte: Marcela Dantas.
Hashtags usadas na comunicação de rua em 15/04/2016.
Fonte: Mídia Ninja.

Mapeamos também a apropriação das hashtags no cotidiano, inclusive pela comercialização de produtos de consumo, movimento típico da lógica de fandom. As camisetas, adesivos e cartazes com a estampa das hashtags de protesto vigoraram em outros ambientes semióticos, adquirindo novas significações pela mudança no contexto comunicacional. 

Camiseta com a hashtag #NaoVaiTerGolpe.
Fonte: página do Facebook do Vomitaço.
Camiseta à venda com a hashtag #ForaDilma.
Fonte: Mercado Livre.

Além disso, quando analisamos a utilização das hashtags na comunicação de rua, percebemos que outras associações são realizadas para além das hashtags. Um exemplo disso é o lançamento de um sistema de cores próprio para disseminação da defesa do impeachment e da hipótese do golpe, que potencializa as camadas de mediação. O primeiro apareceu por meio dos símbolos nacionais, expressos pelas cores da bandeira do Brasil, sobretudo o verde e o amarelo. O segundo foi referenciado pelo vermelho, cor prevalecente na bandeira do PT, que remete diretamente ao socialismo. Isso vai ao encontro do método apriorístico, pois indica conclusões reconfortantes na fixação da crença.

Percebemos então que a criação da dinâmica transmídia do impeachment esteve intrinsecamente ligada ao seu processo de semiose, sendo a incompletude do interpretante um valor fundamental para o crescimento e aprimoramento lógico da narrativa por meio da experiência colateral. Entendemos que o fluxo narrativo estava relacionado à operação semiótica de representação, que visa a formação incessante de novos interpretantes. Com base na aproximação entre a lógica transmídia e a lógica recursiva da semiose, conseguimos desenvolver um modelo analítico próprio para investigar os elementos dessa dinâmica (multiplataforma, expansão e engajamento), em cruzamento com os conceitos semióticos e os princípios transmidiáticos.

As trajetórias traçadas pelas hashtags em estudo, demonstradas na animação em 3D, promoveram o diferencial no aprimoramento lógico da semiose do impeachment, que foram ressignificadas pelas disputas sígnicas em multiplataformas. Por isso, acreditamos que a função mediadora das hashtags incorpore e extrapole seu papel de conector transmídia, sugerido inicialmente por Hougaard (2016). À vista disso, o caráter original da pesquisa reside na triangulação entre semiose, transmídia e hashtags, que possibilitou o exame dos processos de mediação envolvidos no cenário investigado, e trouxe contribuições importantes para o campo das mobilizações sociopolíticas contemporâneas.

Assim, o resultado da análise de dados foi um novo contexto comunicacional, que surgiu como desdobramento da semiose investigada. Como vimos no fluxo de hashtags em torno de #ForaDilma e #NaoVaiTerGolpe, a semiose do impeachment ocupou o lugar lógico do objeto dinâmico do contexto comunicacional das eleições presidenciais de 2018. Essa nova semiose iniciou-se com o desdobramento de alguns interpretantes, como #Bolsonaro2018, que tiveram forte influência nesse cenário.

Isso significa que, mesmo sob ameaça de desuso das hashtags no futuro, a tese não perde a validade, pois as hashtags são apenas recursos mediadores da dinâmica em questão, utilizadas para trazer à superfície uma análise comunicacional da representação de posicionamentos comuns por meio do engajamento social. Existe um objeto-em-contexto que extrapola as relações delimitadas na pesquisa, podendo abranger, de modo complementar, novas combinações de dados. Por essa razão, a metodologia empregada trouxe uma contribuição importante para a análise do contexto sociopolítico brasileiro.