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Pesquisa

As hashtags tornaram-se signos da comunicação contemporânea, extrapolando sua função inicial de monitoramento de rastros digitais no Twitter, para se tornarem agentes na produção de significados em multiplataformas. Elas operam como um guia contextual na condução de um discurso e auxiliam a alimentação de uma conversa em constante modificação. As hashtags têm sido largamente utilizadas em contextos mundiais de mobilização sociopolítica, habitando espaços intersticiais entre os ambientes online e offline. Além de serem utilizadas em várias plataformas digitais, elas também vigoram na comunicação de rua dos protestos, aparecendo em camisetas, cartazes e materiais impressos. Por essa razão, entendemos as hashtags como processos sígnicos que articulam posicionamentos comuns em conexões midiáticas. Sua vitalidade depende do hábito de uso gerado por meio do engajamento social, que traz contradições e ambivalências.

#VemPraRua no protesto de 17/06/2013 em BH
Fonte: página do grupo BH nas Ruas no Facebook. 

Durante as mobilizações brasileiras, a incorporação das hashtags foi recorrente e fluida, pois elas já faziam parte do consumo midiático dos usuários de redes sociais online, sendo uma prática corriqueira na comunicação cotidiana, especialmente para identificar interesses afins de forma rápida e instantânea. No processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, as hashtags explicitaram o antagonismo entre dois grupos distintos, que intensificaram a ideia de polarização em torno da defesa do impeachment e da hipótese do golpe. Esses grupos foram identificados pelos modos de ação dentro e fora das plataformas midiáticas, que revelaram uma disputa sígnica pelo campo informacional do contexto sociopolítico.

As disputas sígnicas em multiplataformas

A dinâmica transmídia é resultado do fluxo de conteúdo que perpassa múltiplas plataformas de mídia, acompanhando o comportamento migratório dos públicos. Por isso, ela pode ser investigada como um sistema de significação, que produz novos sentidos a cada instante por meio do engajamento social. Utilizamos o arcabouço teórico-metodológico do pragmatismo e da semiótica de Charles Sanders Peirce para observar a semiose do impeachment por meio do encadeamento de hashtags. Acreditamos que o posicionamento sociopolítico remeta a um sistema de crença consolidado em hábitos de ação, sendo absorvido como verdade em decorrência do entendimento de certa concepção de realidade. Isso acontece porque existe uma pluralidade de realidades possíveis que afetam nossos sentidos. Podemos perceber comportamentos distintos relacionados a grupos sociais e/ou políticos que incorporam determinados posicionamentos. 

Contudo, os hábitos de ação são provisórios, pois estão, permanentemente, tensionados por outros sistemas de crença que alimentam a constituição da dúvida. Isso fica mais evidente pela produção de conteúdos nos ambientes online e offline, que reforçam ou questionam os sistemas de crença pela visibilidade midiática multiplataforma. Todavia, de acordo com o pragmatismo peirceano, alcançar uma verdade absoluta parece impossível, visto que essa relação é meramente tautológica, pois a investigação da crença está baseada no estabelecimento da opinião. Quando uma crença é fixada, a satisfação da estabilidade sobrepõe à discussão sobre o caráter verdadeiro ou falso dessa proposição. A crença se apresenta, então, como uma suposta verdade que guia nossos desejos e molda nossas ações. 

Essa formação do sistema de crença está relacionada à lógica de fandom, pois revela preferências pessoais por meio de ideologias políticas, que formam grupos temporários em torno de interesses comuns. Além disso, as trajetórias traçadas pelas hashtags demonstram uma espécie de gamificação do processo de semiose pela revelação das controvérsias que culminam em polarização. As disputas sígnicas em multiplataformas contribuem para a expansão da narrativa.  

Assim, realizamos um estudo de caso das hashtags #NaoVaiTerGolpe e #ForaDilma por terem permeado todos os momentos investigados, sendo responsáveis pela criação de tópicos relacionados que ampliaram, significativamente, as narrativas em torno do processo de impeachment. Durante esse percurso, elas se tornaram símbolos da polarização política predominante entre aqueles que eram contra e a favor da destituição da ex-presidente. A maneira como elas se relacionaram com outras hashtags na produção de significados, muitas vezes, alteraram o curso da semiose do impeachment.

Objetivo Geral:

Aferir como e em que medida a mediação das hashtags #NaoVaiTerGolpe e #ForaDilma, durante o impeachment, caracterizou uma dinâmica transmídia, configurando-se como um recurso de expansão de narrativas afins.

Objetivos específicos:

a) compreender a lógica de comunicação relacionada à dinâmica transmídia e a perspectiva de ativismo que dela se deriva;
b) caracterizar a função mediadora das hashtags no processo de impeachment com base no pragmatismo e na semiótica peirceana;
c) descrever o engajamento social via hashtags com base na teoria dos interpretantes de Charles Sanders Peirce;
d) investigar a polarização gerada por meio da mediação das hashtags #NaoVaiTerGolpe e #ForaDilma em multiplataformas;
e) coletar conteúdos mediados pelas hashtags em estudo e analisá-los por meio de categorias dos princípios da lógica transmídia;
f) desenvolver uma visualização da semiose do impeachment gerada pelas trajetórias das hashtags estudadas e demonstrar seu potencial transmidiático.