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Metodologia

Para realização da tese, adotamos procedimentos metodológicos que foram divididos em duas etapas complementares. A primeira teve como procedimento de coleta automatizada os sites de monitoramento Hashtagify.me, RiteTag, Keyhole, Hashtags.org e SocioViz, que foram essenciais para a identificação das associações sígnicas produzidas pelas hashtags em estudo no Twitter, assim como seus principais perfis influenciadores e picos de atividade. Ao mesmo tempo, também optamos pelo método de observação simples dos protestos de rua, que ocorreram nos dias 13 de março, 17 de abril e 31 de julho de 2016, em Belo Horizonte. Também foi usado o procedimento complementar de observação sistemática nos trends do Twitter para compreender quais hashtags estavam na pauta das datas estipuladas.

A segunda etapa foi realizada pelo procedimento de coleta retroativa, desenvolvido pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), sendo possível compreender os picos de audiência de cada hashtag no Twitter, criar nuvens de tags e verificar também a associação sígnica. Isso foi relevante para compreender a conformação dos grupos sociais em torno do processo. Como procedimento complementar, foram realizadas coletas manuais no FacebookInstagram YouTube, além de acompanhamento dos termos “Fora Dilma” e “Não vai ter golpe” no Google Trends para determinar o interesse de busca sobre cada um dos termos analisados ao longo do tempo, facilitando a compreensão da polarização sociopolítica em torno da defesa do impeachment e da hipótese do golpe.

Determinamos, então, categorias para realização de uma análise semiótica do estudo de caso das hashtags #ForaDilma e #NaoVaiTerGolpe, no cruzamento dos princípios da lógica transmídia e da lógica recursiva da semiose de Peirce. Elaboramos generalizações em busca de um conjunto de parâmetros que possa ser utilizado no estudo de outros eventos sociopolíticos. Em sequência, criamos uma visualização da semiose do impeachment na intenção de apresentar particularidades nas associações sígnicas das hashtags em estudo. Essa análise foi fundamental para mostrar a frequência dos fenômenos observados dentro de ações específicas do impeachment.

A partir disso, nossa análise foi iniciada com a linha do tempo da semiose do impeachment, que apresentou a trajetória das principais hashtags que impactaram a construção de sentido de #ForaDilma e #NaoVaiTerGolpe. Com base nos três elementos principais da lógica transmídia (multiplataforma, expansão e engajamento), elaboramos modalidades analíticas pelo viés dos princípios descritos por Henry Jenkins. Essas modalidades de análise apontaram para a composição da gamificação da semiose do impeachment, revelando a sobreposição de estratégias e táticas no compartilhamento de hashtags. Como não era possível abarcar todas as extensões geradas, a finalidade dessa metodologia foi interpretar algumas das trajetórias possíveis que apontavam para o fluxo de novos interpretantes de modo provisório.

Dessa maneira, na primeira etapa da linha do tempo, acionamos os princípios da construção de mundo narrativo, serialidade, propagabilidade e profundidade para mostrar o contexto de surgimento das hashtags #NaoVaiTerGolpe e #ForaDilma nos períodos anteriores ao processo de impeachment. Essa análise foi importante para indicar o início do fluxo de conteúdos multiplataforma, demonstrando a sobreposição de estratégias e táticas nas disputas sígnicas. Em seguida, analisamos o engajamento social na expansão da narrativa por meio da incompletude produtiva do interpretante, mostrando o potencial criativo da semiose. Esse engajamento foi relacionado aos princípios de subjetividade e performance. E a expansão foi associada aos princípios da continuidade e multiplicidade, imersão e extração.

A última parte da análise compreendeu a apresentação de um diagrama de visualização das trajetórias das hashtags analisadas, tendo como base a linha do tempo gerada. Nessa representação, por meio do software Autodesk Maya, utilizamos a técnica de modelagem e animação em 3D. Partimos do modelo de Sierpinski, com arestas estendidas (GAMBARATO, 2005), para construir cada hashtag em forma de tetraedro tridimensional, proporcionando diferentes pontos de vista pelas conexões entre as arestas coloridas. “A tridimensionalidade cria uma representação mais acurada da própria realidade. O diagrama é autorreferencial, porém, com incontáveis desdobramentos. É articulação” (GAMBARATO, 2005, p. 105). Essa tridimensionalidade, então, contribuiu para que o diagrama não fosse uma estrutura rígida com uma sequência espacial de pontos, conforme alerta Certeau (2012), facilitando a demonstração do potencial performativo da semiose.

Visualização dos recursos multimetodológicos

Seguindo o raciocínio dos estudos peirceanos de visualização, criamos um diagrama multimetodológico triádico a partir do modelo de enlace borromeano, para facilitar a visualização topológica do conjunto de procedimentos adotados para a realização da pesquisa. Compreendemos que a abdução reside no domínio de primeiridade fenomenológica, que abarca os primeiros movimentos na formação da hipótese. Nessa etapa, o trabalho de observação foi central, que determinou as ações para a pesquisa exploratória e coleta de dados. Em domínio de secundidade, encontramos a indução, que revela características do universo particular do impeachment, exibindo uma relação existencial com o contexto sociopolítico. Isso foi realizado pela combinação entre pesquisa exploratória e descritiva, que culminou na visualização do fluxo de hashtags. A fim de criarmos generalizações como contribuição para trabalhos futuros, entramos na fase de dedução (terceiridade). O resultado foi o desenvolvimento de categorias para análise sígnica no contexto de mobilização transmídia, um reflexo dos padrões encontrados na coleta de dados e pesquisa descritiva. Todos esses métodos combinados deram origem ao ponto mediano da análise semiótica, que cumpriu função mediadora em todo o processo de investigação.

Diagrama do percurso metodológico da tese criado pela autora.

Conseguimos então enxergar a composição do estudo de caso da semiose do impeachment. Essa categoria de investigação reside no escopo das pesquisas descritivas, que podem ser elucidadas pela análise qualitativa do objeto empírico. Para Santaella (2001, p. 145), “o estudo de caso se volta para indivíduos, grupos ou situações particulares para se realizar uma indagação em profundidade que possa ser tomada como exemplar”. Por meio do estudo de caso do impeachment, que foi realizado pela análise semiótica dos princípios da lógica transmídia, destrinchamos a hipótese lançada no início do trabalho, a fim de criar um raciocínio lógico em torno da questão. Sabemos que esses argumentos são provisórios, pois contemplam parte de uma realidade possível. Contudo, sua articulação está ancorada no método científico, estando em constante diálogo com outras análises e pesquisas do campo da Comunicação. “Nesse ritmo, toda proposição que podemos ter o direito de fazer sobre o mundo real deve ser aproximada; nós nunca podemos ter o direito de manter qualquer verdade para ser exato. Aproximação deve ser o tecido do qual nossa filosofia tem que ser construída” (CP 1.404).

Relatórios de coleta de dados

17 de abril de 2016.
18 de abril de 2016.
11 de maio de 2016.
12 de maio de 2016.
25 a 31 de agosto de 2016.