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Mediação

Na semiótica peirceana, um signo é, de certo modo, aquilo que representa algo para alguém, compreendendo a semiose como um processo de interpretação ad infinitum, pois o significado de um signo é sempre outro signo, e assim por diante. Por isso, o processo de semiose é também um processo de mediação, visto que um signo sempre produz um efeito em uma mente, de natureza humana ou não, com intuito de representar o objeto que o determinou. Essa relação acontece por meio do engendramento lógico existente entre signo (representâmen), objeto e interpretante, formando as operações semióticas de determinação, representação e mediação.

Visualização do modelo peirceano de semiose criada pela autora a partir de Santaella.

O objeto determina a formação do interpretante pela mediação do signo. Já a representação diz respeito ao modo como o interpretante é reportado ao objeto também pela mediação do signo, o que mostra uma relação de alteridade do signo com o objeto. Em seus escritos mais maduros, Peirce define meio como a função mediadora do signo através da qual o signo produz comunicação e cognição quando se transforma, semiosicamente, em outro. O efeito de um signo pode ser um sentimento, esforço ou pensamento, que vai se manifestar em um novo signo, o interpretante. 

A formação do interpretante passa pela associação de outros signos adjacentes por meio da experiência colateral, entendida como a familiaridade prévia com aquilo que o signo denota, pré-requisito necessário para a compreensão do signo. Trata-se de uma lógica recursiva, focada na repetição sígnica por meio da mediação. Porém, essa repetição não é circular, mas remete à uma sequência lógica do processo sígnico, introduzida pela formação do interpretante a partir da operação semiótica de representação. Por isso, não podemos falar de um ponto de partida original ou de um ponto de chegada da semiose. O que importa é o fluxo de significados, que funciona por meio da experiência colateral. Esse é o mecanismo da gamificação da semiose do impeachment, que visa a produção incessante de novos interpretantes. Isso garante a manutenção da referência ao objeto, sem comprometer a capacidade criativa da semiose.

A relação entre signo e objeto demonstra especificamente os modos de representação pelas mediações sígnicas. Em domínio de primeiridade, o signo se apresenta como um ícone em relação ao objeto, remetendo a uma mera qualidade interna de sentimento, que não pode ser apreendida. Em domínio de secundidade, o signo é um índice que estabelece uma contiguidade física, deixando um rastro existencial que aponta diretamente para o objeto. Por último, em domínio de terceiridade, percebemos que o signo opera pela força de uma lei, de uma convenção, tornando-se um símbolo pela repetição indicial, que transparece normalmente uma associação de ideias gerais.

Por esse viés, podemos então conceber as hashtags como processos sígnicos, dado que elas se relacionam com os objetos (realidades) que as determinam em domínios distintos e provisórios de representação, que dão origem aos sistemas de crença pela conformação de hábitos de ação. O sentimento despertado na condição de ícone remete ao contexto político-midiático do julgamento da ex-presidente. Esse sentir está relacionado à identificação política, que diz respeito ao campo da constituição ideológica. Essa identificação funciona como qualidade preexistente. Como estamos nos referindo à lógica de fandom, percebemos que essa qualidade de sentimento surge por meio de metáforas, que relacionam o significado do representante e do representado por meio de analogias entre cultura popular e postura cívica.

O posicionamento sociopolítico é representado pelos dois grupos de formas distintas a partir desse sentimento. O domínio indicial das hashtags visibiliza a defesa do impeachment e a hipótese do golpe, apresentando factualmente os dois posicionamentos possíveis. No caso da hashtag #ForaDilma, esse sentimento aciona a temática da corrupção, já #NaoVaiTerGolpe está ancorada na temática da democracia. Quando essas hashtags são assumidas como símbolos, elas passam a reivindicar o estatuto de verdade por meio do estabelecimento da opinião. Os hábitos constituídos geram uma batalha sígnica pelo campo informacional do processo de impeachment, que buscam o reconhecimento e validação de suas crenças. 

Nesse cenário de polarização, um grupo tende a desprezar e/ou ressignificar os signos gerados pelo grupo adversário, vinculando-os a outros signos já estabelecidos para alterar o curso de significação da semiose em decorrência da dúvida. Por essa razão, constatamos que as hashtags raramente atuam de forma isolada, temporal ou espacialmente, promovendo uma forte conexão com outras hashtags. Elas são atualizadas recorrentemente pelo compartilhamento, gerando uma teia de conexões lógicas. 

O sentido de uma hashtag é, assim, configurado em cada situação comunicativa sem, contudo, perder a referência a um contexto mais amplo de significação, normalmente acionado em conexões transmidiáticas. Essa trajetória espaço-temporal, formatada pelos processos de mediação, impõe desafios para a análise do fluxo contínuo de significados, especialmente em conexão com o ambiente offline.